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Estudo revela que bactérias benéficas protegem contra malária

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Uma equipa de investigação do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) liderada por Miguel Soares revelou que componentes específicos de bactérias residentes no intestino podem desencadear um mecanismo natural de defesa que bloqueia a transmissão de malária.

A componente chave do processo é a molécula de um açúcar chamado α-gal (alfa-gal), que é produzido pelo parasita Plasmodium, agente responsável pela malária, e também por uma estirpe da bactéria Escherichia coli, existente no intestino humano. Através de experiências realizadas em ratinhos, Bahtiyar Yilmaz, estudante de doutoramento do IGC, descobriu que a produção de α-gal por estas bactérias é suficiente para induzir a produção de anticorpos naturais anti-α-gal capazes de reconhecer a mesma molécula de açúcar na superfície do Plasmodium.

Imediatamente após a inoculação do parasita na pele pelo mosquito que transmite a malária, estes anticorpos ligam-se ao α-gal na superfície do Plasmodium e ativam um mecanismo adicional do sistema imune que o mata antes de sair da pele, conseguindo impedir que este transite para a corrente sanguínea. Ao fazê-lo a transmissão da malária é bloqueada.

O nível de anticorpos anti-α-gal, que a investigação revelou ser menor em crianças mais pequenas, pode ser o fator diferencial de suscetibilidade à malária: apenas uma fração de todos os indivíduos adultos efetivamente mordidos por mosquitos ficam infetados, o que contrasta com uma exponencialmente maior suscetibilidade de crianças com menos de 3 a 5 anos de idade de contrair malária. Estima-se que 3,4 mil milhões de pessoas estejam em risco de contrair malária e os dados da OMS de 2012 indicam que cerca de 460 000 crianças africanas morreram antes do seu quinto aniversário.

A investigação demostrou, através de experiências realizadas em ratos, que este mecanismo protetor pode ser ativado por vacinação contra uma molécula sintética de α-gal, relativamente fácil de produzir e económica. Como explica Miguel Soares “uma das maravilhas do mecanismo protetor que descobrimos agora é que pode ser induzido através de um protocolo de vacinação standard, levando à produção de elevados níveis de anticorpos anti-α-gal que se podem ligar e matar o parasita Plasmodium. Se pudermos vacinar crianças de tenra idade contra α-gal, muitas vidas podem ser salvas.”

Recentemente publicado na revista Cell, o artigo reúne os resultados do estudo desenvolvido no IGC em colaboração com o National Institute of Allergy and Infectious Diseases (Maryland; EUA), Instituto de Higiene e Medicina Tropical (Lisboa, Portugal), St Vincent’s Hospital e University of Melbourne (Victoria, Austrália), University of Chicago (Chicago, EUA), e University of Sciences, Techniques and Technologies of Bamako (Bamako, Mali), e contou também com financiamento da FCT, assim como da Fundação Bill and Melinda Gates (EUA), e do European Research Council (ERC).